Desvendando um conto: concurso literário













CONCURSOS DE LETRAS ET CETERA

Desvendando um conto: concurso literário





Rio de Janeiro, 15 de maio de 2010

Caros leitores:


A revista Letras et cetera decidiu premiar os vencedores do concurso Desvendando um conto com o livro Pára-raio de Loucos - editora Assis 2009 , escrito por um dos fundadores: o escritor Borboleta (assinatura literária de Fábio Amorim de Matos Júnior).
O conto Um último trago foi publicado originalmente nesse livro e republicado em Revistinha 22 (editora Assis, 2010). Compartilhem sua leitura e reflexão crítica com os outros leitores de Letras et cetera enviando uma resenha* sobre esse conto.
Abaixo, o regulamento e o conto.

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* lembrem-se que “uma resenha é um resumo (abreviação ou recapitulação em poucas palavras) crítico que obriga a apresentar juízos e comentários pessoais, além da descrição objetiva do texto."(adaptação do texto de Carlos Ceia)






O REGULAMENTO




1 – Os participantes deverão enviar para letrasetcetera@gmail.com uma resenha com 1 ou 2 laudas (de 2000 a 3000 caracteres com espaços), título, nome, endereço de e-mail válido e colocar no assunto do e-mail “Concurso Literário - Desvendando um conto”.

2 – Os textos devem ser enviados até o dia 15 de junho.
O autor, ao enviá-las, estará expressamente concordando com a publicação.

3 – Todas as resenhas serão publicadas com o nome do autor e identificadas como participantes do concurso.

4 – A votação realizada pelos leitores visitantes da revista se estenderá do dia 22 de junho até o dia 22 de julho.

5 – Serão consideradas finalistas as 10 resenhas que receberem o maior número de votos, em turno único. Essas dez mais votadas pelos leitores serão encaminhadas a uma comissão julgadora que selecionará as 3 melhores.

6 – As resenhas vencedoras serão anunciadas até o dia 15 de agosto e seus autores ganharão o livro de presente e terão suas resenhas republicadas em Letras et cetera. O resultado será anunciado na revista e os ganhadores receberão um email informando que venceram o concurso e solicitando os dados completos para que os livros sejam enviados. Em caso de email inválido, ou ausência de resposta em até 7 dias, será declarado vencedor o quarto colocado.

7 – Cada participante pode concorrer com apenas um texto. Utilizaremos o critério de ordem de recebimento para caracterizar as resenhas que participarão do concurso, assim como para postá-las na revista a fim de participarem da votação.

8 - Podem enviar sua resenha todos os escritores desta revista, exceto os integrantes da comissão julgadora e a nossa equipe administrativa.

9 - Poderão votar TODOS os visitantes. E membros, sem exceção.

10 - O concurso não exige nenhum pagamento. Todos podem participar gratuitamente e os prêmios não poderão ser trocados por dinheiro.






O CONTO



Um último trago [1]

..........................................................................Borboleta [2]



O retrato que guardo na memória de nosso últi­mo trago é tão nítido que, por vezes, sobressaltam-me as lembranças a ponto de não acreditar totalmente em sua partida. Nesses momentos, coçam-me os dedos e sa­livam-me na boca os resquícios de um amor alimentado à nicotina.

O interessante, porém, é que nunca havia me vindo o propósito de depositar nova fumaça por entre as mãos. Bastava-me dirigir o olhar para cima da estante e pronto. A presença da marca do tempo no maço ainda aberto, dos resquícios esmaecidos de seus lábios no filtro sobre o cinzeiro e de sua imagem sorridente na moldura faziam-se suficientes para que toda a vontade dissipasse-me pelas narinas.

Aliás, confesso que sempre gostei dessa sensação. Não tanto pelo motivo que muitos suporiam: pela con­seqüente repulsa que me advinha da vontade de voltar a fumar. Na verdade, ao longo de todos esses anos, pouco ou nada me custou tal fadiga. E não se trata de desculpas de um viciado à espera do crime. Você bem sabe que minha recusa ao tabagismo sempre foi coisa existencial; afinal, nunca houve sentido em acalorar o peito na au­sência de sua companhia.

Sendo assim, se acaso alguém, de índole since­ra, indagasse os motivos reais de tal contentamento, eu estaria pronto a apontar as mil e uma recordações que, juntamente com a supressão de qualquer afeição pela fu­maça, entravam-me pelas narinas. E, de fato, não esta­ria mentindo, pois era batuta, bastava-me afastar a mão tremente do isqueiro e seu olhar sedutor novamente encantava-me por cima da mesa encharcada de Martini. Depois, curta era a distância para que os suspiros len­tos assumidos por seus gestos tocassem-me os ouvidos e o vermelho impresso em seus alvos dedos acendesse e estendesse-me, complacente, todo o seu Charme.

É ver­dade que sua gargalhada, perante a advertência tossida da virgindade de meu primeiro trago, ainda me enrubes­ce as faces; mas, a sensação de seus lábios macios a con­duzirem carinhosamente a fumaça para dentro de meu peito, logo me acalma o espírito. Aliás, salvo esse despropósito, creio ter sido aluno exemplar. Tanto foi assim que, naquela mesma noite, já me foi dado sentir o hálito gelado da nicotina a tragar, para os pulmões, os respiros de sexo que ainda pululavam pelas veias.

Mas, veja você como são as coisas, por mais que me esforce para reproduzir o remorso e a vergonha da manhã seguinte em face de seu corpo nu, nunca mais consegui vivenciá-los com fidelidade. Por vezes, até me pergunto com amargura: ¿será que essa bituca de nossa história quedará, para sempre, perdida pelas vielas da memória, adormecida nas cinzas, como se nunca houvesse existido?

Seja como for, recordo muito bem de como sua indiferença, frente a qualquer possibilidade de arrepen­dimento, apaziguou-me a intranqüilidade. De modo que, ainda por ali, já me tenha sido possível dizer que sem­pre havia te amado. Mas, o melhor de tudo era escutar suas frases roucas a retribuir-me o agrado, dizendo que, em você, o amor surgira antes mesmo que eu houvesse nascido.

Talvez, justamente por isso, nunca me tenha sido dado compreender inteiramente o por quê do sigilo im­posto à nossa relação. Ainda me é possível sentir o hálito enfumaçado de suas explicações e o tom severo assumi­do por sua voz ao se referir à diferença de idade e, sobre­tudo, à natureza dos laços que nos cercavam.

Não obstante, nós dois sabemos ter sido de pouca valia tanta discrição. Pois, bastaram os filhos co­meçarem a se nos apresentar e não tardou muito para que os outros envergassem-nos os olhares e resmungas­sem enraivecidos pelos cantos: “corja de cães sarnentos”.

Fora isso, o sucesso de nossa prole é outro epi­sódio digno de recordação. ¿Lembra-se de como nos foi custoso o trajeto até Lili? ¿Quantos bebês anômalos ti­vemos que oferecer ao mar, na esperança de que, longe de todos os outros, o olhar de Deus finalmente recaísse sobre eles? Mas creio ter valido a pena, pois quando nos­sa bonequinha apareceu foi uma felicidade só.

Por vezes, ainda hoje, no meio da noite, sobres­salto assustado ao virar-me na cama, tudo em função do cuidado que tomávamos para que ela, tão pequenina, en­tre nós gigantes, não dormisse asfixiada por nossos mais profundos sonhos. Difícil mesmo era observar a reco­mendação de não tirarmos uns tragos ao lado dela; penso que, não fosse tal restrição, nós três teríamos vivenciado outros tantos momentos em família.

Nos últimos tempos, você sempre me dizia estouvado e re­belde. Embora nunca lhe tenha dito, sempre soube que tais queixas deviam-se a um certo despeito de sua parte, fruto evidente da inversão de papéis que já virava páginas em nossa relação. Por outro lado, apesar de sua relutância, bem sei que muito lhe apraziam as novidades, então, trazidas por mim; como pude constatar na vez em que entrei de supetão cozinha adentro e a flagrei, em pleno êxtase, com um Hilton longo e um copo de Antártica entre as mãos; embora você sem­pre tenha insistido que, além do Martini Bianco, nada mais no mundo possuiria algum Charme. Sem contar o quanto lhe confortou os efeitos da papoula argentina; se bem que, nesse caso, creio que qualquer outro alucinógeno lhe subtrairia a mesma reação, afinal, dada sua vaidade, não lhe era nada fácil suportar a idéia de arfar o peito com um seio a menos.

Depois disso, rápido mesmo foi o sofrimento. Sua imagem irrequieta a definhar dia após dia sobre os len­çóis. A debilidade assustadora a tomar conta de seu cor­po, de seus lábios e de suas mãos. E, não obstante o re­flexo de seu desejo vermelho no batom e no esmalte, lamento por não ter conseguido encontrar cosméticos para que você pudesse maquiar o destino. Apesar disso, até agora me orgulha sua determinação em contrariar o desengano dos médi­cos; sobretudo, porque suspeito que, para você, tal obstinação não tenha passado de mais um capricho, tal como o foi o de não querer se dei­xar apagar no meio da semana. Quando, porém, a noite de sábado veio e você me pediu um pito, desde já eu sabia que seria o último; por isso toda minha demora em trazê-lo. Sei que corro o risco de ser taxado de romântico, mas sustento a impressão de que apagamos nosso último ci­garro com a mesma desenvoltura de juventude com que acendemos o primeiro.

Mas, como eu lhe dizia há pouco, apesar das lem­branças, nunca havia me vindo o propósito de deposi­tar nova fumaça por entre as mãos. Bastava-me dirigir o olhar para cima da estante e pronto. A presença da marca do tempo no maço ainda aberto, dos resquícios esmaecidos de seus lábios no filtro sobre o cinzeiro e de sua imagem sorridente na moldura faziam-se suficien­tes para que toda vontade dissipasse-me pelas narinas. Entretanto, hoje – apesar de todos esses anos, em que a marca de nosso desejo permaneceu cristalizada na estan­te –, receio que alguma coisa se me afigure diferente.

Havia jogo da Seleção quando Lili resolveu sair do banho, cheirando a condicionador de chocolate e en­volta por aquela antiga toalha vermelha que tanto era de seu agrado. Só então, através das curvas daqueles avo­lumados seios, pude ver a poeira do tempo depositada sobre minha pele. Tenho certeza de que também lhe marejaria o orgulho dar com nossa menina, assim, tão crescida. E tão esperta! Imagine você que, ainda há pouco, era ela quem me ensinava – com a mesma desenvoltura da mãe – a navegar pelas ondas virtuais. E como você sempre me ensinou a ser agradecido, penso já ser hora de retribuir à nossa pequena o favor. Por isso, peço-lhe desculpas mamãe, mas antes que algum garotão de cabelo arrepiado ante­cipe-me, é preciso que, ao lado de Lili, eu volte a fumar.


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[1] Publicado originalmente em Pára-raio de Loucos (editora Assis, 2009) e republicado em Revistinha 22 (editora Assis, 2010)

[2] Borboleta é a assinatura literária de Fábio Amorim de Matos Júnior. Doutorando em filosofia, Fábio Amorim atua como professor universitário. Borboleta, por sua vez, é escritor independente, acaba de publicar seu primeiro livro de contos – “Pára-raio de Loucos” – e mantém vivo um sítio sobre literatura e outras coisitas mais: http//:pararaiodeloucos.blogspot.com